As mulheres com VIH e hepatite B ou C apresentam uma densidade mineral óssea inferior à das mulheres com VIH mas sem estas co-infecções, afirma um grupo de investigadores italianos, na edição de Outubro da revista AIDS. Esta diferença, porém, não foi observada nos homens: os homens mono-infectados e os co-infectados apresentavam densidades ósseas semelhantes.
Os investigadores chamam a atenção para a necessidade de se realizarem mais estudos, que “clarifiquem o mecanismo responsável pela menor densidade óssea nas mulheres co-infectadas”.
A terapêutica ARV (anti-retroviral) foi, como é sabido, responsável por uma melhoria significativa do prognóstico das pessoas infectadas pelo VIH. Há actualmente um grande optimismo sobre a possibilidade de os medicamentos ARVs poderem vir a dar às pessoas com VIH uma esperança média de vida semelhante à das outras pessoas.
Os estudos têm, porém, mostrado de forma consistente que a co-infecção com hepatite B ou hepatite C está associada a taxas mais elevadas de doenças graves e de mortalidade do que a mono-infecção pelo VIH.
Muita da investigação sobre o impacto das co-infecções por hepatites em pessoas com VIH tem-se debruçado no impacto sobre o fígado, facto que, aliás, não constitui surpresa. Contudo, tanto a hepatite B como a C podem provocar outras complicações importantes, uma das quais é a redução da densidade mineral óssea.
Foi neste contexto que um grupo de investigadores de Modena, na Itália, levou a cabo um estudo com o objectivo de determinar a prevalência e factores de risco para uma densidade mineral óssea mais baixa em doentes com VIH co-infectados pela hepatite B ou C.
A densidade óssea foi determinada com base em imagens de DEXA scan obtidas em dois locais do organismo, a coluna lombar e o colo do fémur (osso da perna/anca). Os investigadores calcularam o Z score (ou seja, o valor, aqui denominado “Z score”) específico para a idade e sexo – a diferença entre a densidade óssea observada e a esperada para os indivíduos do mesmo sexo e idade -, tendo um valor de Z score de pelo menos - 2.0 sido tomado como indicador de uma densidade óssea significativamente mais baixa que o esperado.
Também foram avaliados vários parâmetros laboratoriais sanguíneos como a carga viral do VIH, contagem de células CD4s, bem como alguns parâmetros metabólicos conhecidos por poderem afectar a densidade óssea.
Conduzido entre 2004 e 2007, o estudo envolveu 1237 pessoas. Foram detectados anticorpos para a hepatite B em 85 (9%) indivíduos e anticorpos da hepatite C em 572 (47%).
Os homens apresentavam, em geral, Z scores para a coluna lombar mais baixos do que as mulheres (- 0.5 vs + 0.06, p < 0.001). Contudo, as mulheres com co-infecção VIH/VHC apresentavam Z scores para a densidade óssea desta região mais baixos do que as mulheres apenas com VIH (- 0.15 vs + 0.29, p < 0.001), diferença que se manteve após se ter procedido ao controlo para outros factores que podem também afectar a densidade óssea (p < 0.001).
Ao contrário, não se verificaram diferenças significativas na densidade óssea da coluna lombar entre os homens mono e co-infectados.
Em seguida, os investigadores foram avaliar as diferenças registadas no Z score a nível do colo do fémur. Uma vez mais, as mulheres co-infectadas apresentavam Z scores mais baixos do que as mono-infectadas, mesmo após ajuste para outros factores com potencial interferência na doença (diferença, - 0.26, p = 0.02). Nos homens, e à semelhança do observado para a coluna lombar, os Z scores observados eram semelhantes nos mono e nos co-infectados.
Os investigadores também realizaram análises com o objectivo de verificar se o risco de baixa densidade óssea era diferente para os indivíduos co-infectados com VIH e hepatite C e os indivíduos apenas infectados pelo VIH.
Verificou-se, por outro lado, que o número de mulheres com um Z score de - 0.2 ou menos era cerca do dobro do dos homens.
Além disso, verificou-se que uma densidade mineral óssea reduzida na coluna lombar era mais frequente em doentes co-infectados do que indivíduos com mono-infecção (9% vs 6%).
Depois do ajustamento para factores como o uso de terapêutica ARV, tabagismo e nível de actividade física, os investigadores descobriram que o risco de baixa densidade mineral óssea nesse local era mais elevado para as mulheres co-infectadas do que para os homens na mesma situação.
Entretanto a densidade mineral óssea reduzida no colo do fémur era ligeiramente mais prevalente entre as mulheres do que entre os homens (8% vs 7%). Os Z scores inferiores a - 0.2 também eram mais frequentes entre os pacientes co-infectados (9% vs 7%), mas esta diferença não foi significativa.
Depois de procederem aos ajustamentos para vários factores com potencial interferência nos resultados, os investigadores descobriram, uma vez mais, que o risco de densidade óssea reduzida nesta região se encontrava aumentado nas mulheres co-infectadas, mas não nos homens co-infectados. Mas a associação era fraca e não atingiu o limiar da significância estatística.
Por fim, os investigadores analisaram os scores lombar e femural em conjunto, tendo observado que os Z scores baixos nestas localizações eram mais frequentes nas mulheres do que nos homens (14% vs. 9%, p < 0.001). Além disso, verificaram que, depois do habitual controlo para factores com potencial interferência nos resultados, a associação entre co-infecção por hepatites e Z scores baixos nestes locais persistiu para as mulheres, mas não no caso dos homens.
Centrando-se nas pessoas co-infectadas com hepatite C, os investigadores descobriram que os Z scores eram significativamente mais baixos em ambos os locais do organismo no caso das mulheres co-infectadas, embora, uma vez mais, tal não se tenha verificado no caso dos homens com a mesma co-infecção.
“Descobrimos que estas hepatites virais aumentavam o risco de baixa densidade mineral óssea entre as pessoas com VIH”, refere o grupo de investigadores. Que acrescenta que as razões pelas quais esta associação foi significativa entre as mulheres co-infectadas “permanece pouco clara”, embora afirme que muito do impacto da co-infecção por hepatite B ou C no metabolismo ósseo é ainda desconhecido.
“Os estudos futuros deverão avaliar as taxas de fracturas e examinar os factores de risco e potenciais mecanismos para reduzida massa óssea, entre os doentes com co-infecção VIH/hepatites virais”, concluem os autores.