As crianças e jovens adultos que são infectados pelo VIH desde o nascimento, com historial de terapêutica anti-retroviral, têm níveis inferiores de gordura nos membros que os seu pares seronegativos, de acordo com um relatório de investigadores americanos apresentado na 27ª edição da revista AIDS, publicada em Março.
Os indivíduos infectados pelo VIH desde o nascimento têm à sua frente uma vida de terapêutica anti-retroviral, o que pode aumentar o risco de doença cardiovascular. Os investigadores acreditam que as suas descobertas “realçam a necessidade de promover alterações do estilo de vida (dieta, exercício, redução do tempo de visionamento de televisão, cessação tabágica) que reduz o risco cardiovascular.”
A terapêutica anti-retroviral reduz as taxas de doença e morte entre as pessoas infectadas pelo VIH, existindo, por isso, um optimismo crescente em relação ao facto de esta terapêutica poder possibilitar às pessoas seropositivas uma esperança vida próxima da média habitual.
Todavia, a terapêutica para o VIH tem efeitos secundários. Alguns fármacos para o tratamento do VIH, particularmente o d4T (estavudina, Zerit) e AZT (zidovudina, Retrovir), têm sido relacionados com alterações corporais. Adicionalmente, foram observadas alterações metabólicas nas pessoas sob terapêutica anti-retroviral, incluindo aumento do colesterol e anomalias a nível da glucose.
Os investigadores tinham como objectivo identificar a prevalência das modificações corporais e das alterações metabólicas numa amostra de crianças e jovens adultos infectados pelos VIH com idades compreendidas entre os 7 e 24 anos.
Estes jovens adultos foram comparados com indivíduos num estádio de desenvolvimento físico, idade e sexo comparáveis.
A população do estudo inclui 161 pessoas cuja terapêutica anti-retroviral incluía um inibidor a protease e 79 que estavam sob terapêuticas que não incluíam esta classe de fármacos. Os participantes tinham entre os sete e 24 anos (mediana, 12 anos). A população de controlo incluía 156 indivíduos seronegativos para o VIH.
Ambos os grupos de indivíduos seropositivos tinham um historial longo de terapêutica anti-retroviral. A duração média do tratamento para o VIH estava pouco abaixo dos dez anos para as pessoas no grupo dos inibidores da protease e nove anos no grupos dos que não estavam a tomar inibidores da protease.
Os indivíduos seropositivos, independentemente do tipo de terapêutica instituída, tinham contagens abaixo da média para a altura (p<0,01), peso (p<0,01) e para o índice de massa corporal (IMC) – p = 0,02 – quando comparados com os seus pares seronegativos.
Para além disto, a gordura total dos membros (avaliada através de DEXA scan) era baixa em ambos os grupos de pessoas seropositivas para o VIH quando comparado com o grupo de controlo seronegativo (p < 0,01).
O uso de d4T e AZT era generalizado. Mais de metade (54%) dos indivíduos tratados com inibidores de protease tinham tomado d4T, sendo a duração média desse tratamento de seis anos. Mais de um terço dos participantes que não tomavam inibidores da protease também tinham experiência com d4T, sendo a média de tratamento seis anos.
Adicionalmente, 26% dos indivíduos tratados com inibidores da protease tinham tomado AZT (duração média de seis anos), bem como 46% dos que estavam em esquemas terapêuticos sem inibidores de protease (duração média de sete anos).
Seguidamente os investigadores focaram-se nos níveis dos lípidos. A sua análise demonstrou que o grupo do inibidor da protease tinha uma prevalência maior de valores lipídicos anómalos que os indivíduos seronegativos do grupos de controlo. O que incluía o colesterol total acima de 200mg/dl (29% vs 10%), colesterol LDL alto (acima dos 130mg/dl, 19% vs 6%), colesterol HDL baixo (abaixo dos 35mg/dl, 10% vs 4%) e triglicéridos altos (acima dos 130mg/dl, 52% vs 13%).
Os valores da insulina em jejum foram mais alto nos indivíduos seropositivos - independentemente da sua terapêutica – que os dos grupos de controlo seronegativo (p < 0,001), bem como a contagem HOMA-IR - uma medida de resistência à insulina (tratados com inibidores da protease, p = 0,005; não-tratados com inibidores de protease, p = 0,004). Os resultados demonstraram que os níveis de insulina a duas horas eram significativamente mais altos no grupo tratado com inibidores de protease do que no grupo de controlo (p = 0,006).
“Observámos a prevalência alta de dislipidémia nos participantes que tinham infecção pelo VIH, particularmente nos que estavam sob esquemas que continham inibidores da protease”, comentaram os investigadores, acrescentando “a dislipidémia, mais concretamente os níveis de colesterol LDL superiores a 130md/dl, foi associada com um risco elevado de doença cardiovascular em adultos.”
Os investigadores também expressaram a sua preocupação, pois “os níveis baixos de gordura nas extremidades entre as crianças e jovens seropositivas pode tornar-se num factor importante para a adesão à terapêutica e pode necessitar de intervenção.”
Deviam ser promovidas alterações no estilo de vida que reduzam o risco de doença cardiovascular junto das crianças e jovens adultos infectados pelo VIH, de acordo com a sugestão dos investigadores.