As lavagens anais e vaginais não parecem aumentar o risco de Infeções sexualmente transmissíveis

Gus Cairns
Published: 29 May 2012

De acordo com uma apresentação feita na International Microbicides Conference, nem as lavagens rectais nem as vaginais parecem estar significativamente associadas com infeções de transmissão sexual ou outras situações microbianas que aumentem o risco de infeção pelo VIH, facto que havia sido receado anteriormente.

No caso das mulheres, a lavagem vaginal e outras práticas vaginais têm sido associadas com vaginose bacteriana (VB), um desequilíbrio dos tipos de bactéria que habitualmente colonizam as superfícies mucosas da vagina. A VB pode causar doença inflamatória pélvica e parto prematuro na mulher grávida, e está associada a um risco mais elevado tanto de adquirir como de transmitir VIH.

Neste contexto, o ensaio HPTN 035do candidato a microbicida PRO2000 incluiu um inquérito sobre práticas de saúde vaginal, desaconselhando as práticas associadas a um risco maior de VB, e tentando descobrir alguma relação entre essas práticas e a VB. Não encontrou nenhumas, embora um estudo menor em mulheres de Los Angeles tenha, esse sim, encontrado uma associação com a VB, não da lavagem vaginal, mas do uso de lubrificante conhecido como petroleum jelly.

No caso da lavagem rectal nas mulheres e nos homossexuais masculinos, é muito escassa a informação disponível até ao presente. Contudo, alguns achados no decorrer dos últimos anos no sentido de que o uso de lubrificantes  no sexo anal – em particular os à base de água – estaria associado a taxas mais elevadas de infeções transmitidas sexualmente, levantaram algumas preocupações, nomeadamente as de que outras práticas com impacto na frágil mucosa rectal também pudessem aumentar o risco de infeções sexualmente transmitidas (ISTs) e de VIH. Neste contexto, a International Rectal Microbicide Advocates (IRMA) levou a cabo um estudo-inquérito sobre a prática da lavagem rectal. O estudo encontra-se ainda a decorrer, mas os resultados preliminares foram apresentados no mês passado.

Práticas de higiene vaginais e rectais em mulheres – no HPTN 035 e no estudo de Los Angeles

No HPTN 035, as práticas relacionadas com a higiene vaginal eram avaliadas em visitas trimestrais e as 3087 participantes eram aconselhadas a tentar não usar essas práticas. As mulheres foram divididas no grupo das que não praticavam lavagem vaginal, no das que usavam apenas água e no das que usavam outros produtos como sabonetes e água ou produtos comerciais como o Kasaro®.

A proporção de mulheres com qualquer prática relacionada com a higiene vaginal caiu de 60% no início do estudo para 36.5% na última visita, uma descida mantida, e não apenas uma descida que ocorreu só após a primeira visita.

A vaginose bacteriana era comum no início do estudo, e a proporção de mulheres com esta patologia não se modificou com o tempo – em todas as visitas, entre 36 e 38% das mulheres apresentavam-na. Não havia qualquer associação entre a higiene vaginal e a VB.

Outro estudo, realizado em mulheres em Los Angeles (Brown), avaliou as práticas de higiene vaginal e lubrificantes numa coorte de 141 mulheres, desenhada de modo a refletir uma mistura étnica e de estados serológicos do VIH: 26% tinham VIH e 40% eram negras, 34% brancas e 26% latinas. A idade média era de 33 anos (variando entre 18 e 65). A taxa de sexo anal era bastante elevada: 71% já o haviam praticado alguma vez e 18% tinham-no praticado no último mês.

Quarenta e cinco por cento das mulheres referiu a prática de lavagem vaginal e 4% rectal no mês anterior: o método mais comum era o vinagre diluído em água, tendo 21% referido o uso de lubrificantes comerciais e outros produtos como gel (petroleum jelly) na via vaginal, e 11% na via rectal.

As mulheres de etnia negra tinham maior probabilidade de referir lavagem vaginal (55% referiram-no) e uso de lubrificantes rectais (16%). Estas mulheres tendiam a favorecer o gel à base de petróleo enquanto as mulheres brancas e de etnia latina usavam mais lubrificantes comerciais. A maioria das mulheres mostrou-se consistente ao longo das visitas. Não se observou uma associação entre o estado serológico das mulheres relativamente ao VIH e o seu uso de lavagens ou lubrificantes. Verificou-se porém uma forte associação entre o uso de gel de petróleo e vaginose bacteriana: as mulheres que usavam este produto tinham 2.6 vezes mais probabilidade de ter VB. Mas não se verificou uma associação entre esta patologia e outros lubrificantes ou lavagens.

Lavagem rectal: o estudo-inquérito da IRMA

Shauna Stahlman, da University of California, Los Angeles, apresentou dados dos primeiros três meses do estudo. Durante esse período, 926 pessoas haviam respondido ao inquérito; a maioria eram homens homossexuais, mas 16% eram mulheres e 2% transgénero. Dois terços eram da América do Norte e 19% da Europa (7% do Reino Unido) e a sua idade média era de 38 anos, tendo um quarto dos participantes menos de 30 anos. Mais de três quartos das pessoas que responderam ao inquérito (726) referiu a prática de sexo anal nos três meses anteriores e apenas estes foram incluídos na análise. Mais de 90% das pessoas que tinham tido sexo anal referiu o uso de lubrificantes nos últimos 3 meses, e 63% referiu ter feito lavagens rectais. Apenas 32% referiu que o parceiro havia usado sempre o preservativo nas ocasiões em que os primeiros eram o elemento recetivo no sexo anal.

Das 440 pessoas que referiram a prática de lavagem rectal nos três meses anteriores, a grande maioria eram homens gays (94%) – apenas 26 mulheres referiram esta prática. Três quartos faziam a lavagem antes do sexo; cerca de um terço fê-lo depois e um quinto antes e depois. Três quartos usaram um “produto caseiro”, enquanto 35% usaram produtos comerciais. “Produto caseiro” geralmente significava vinho, mas as pessoas referiram o uso de várias substâncias, desde o vinho à urina.

A lavagem estava associada ao uso de lubrificantes e à utilização de drogas e mais parceiros sexuais – uma média de cinco nos últimos três meses, contra dois nos restantes casos. Estava também fortemente associada a pessoas infetadas pelo VIH: 44% das pessoas que realizavam esta prática eram seropositivas, enquanto apenas 18% das que a não realizavam tinham VIH. Também estava associada a um diagnóstico de ITS: 21% das pessoas que realizavam esta prática referiu ter tido uma ITS recentemente, contra 11% no caso das pessoas que não faziam lavagens. Não mostrava associação, positiva ou negativa, contudo, com o uso de preservativos: as pessoas que reportavam esta prática não tinham nem mais nem menos probabilidade de utilizar preservativos.

Na análise multivariada, os factos de se ser seropositivo para o VIH e de se usar drogas mantiveram-se fortemente associados com a prática destas lavagens, tal como – embora em menor extensão – a idade (as pessoas mais velhas tinham maior probabilidade de fazer lavagens). Mas o diagnóstico de ITS deixou de se mostrar significativo como fator de risco independente, mesmo que ele fosse 43% mais provável nos “douchers” (as pessoas que fazem estas lavagens - douches, em inglês); isto poderia ser explicado pelo facto de tenderem a ter mais parceiros sexuais.

Embora estejamos perante uma amostra auto selecionada, e embora ela possa não representar todos os prováveis utilizadores de microbicidas rectais, o inquérito sugere que as práticas de higiene rectal são já comuns entre os prováveis beneficiários de microbicidas rectais e que a formulação na forma de clister – além da formulação tipo lubrificante – seria provavelmente aceite, e não em si susceptível de aumentar o risco de ITS.

A análise futura avaliará as tendências por região, género e tipo de parceiros. O inquérito ainda se encontra aberto, podendo-se participar em: www.keysurvey.com/votingmodule/s180/survey/382277/d7a7/.

Referências

Kasaro MP et al. Impact of vaginal hygiene counselling on vaginal microflora balance during participation in HIV Prevention Trials Network microbicide trial HPTN 035. InternationaMicrobicides Conference, Sydney, 2012. Veja aqui o programa.

Brown J et al. Vaginal and rectal douching and insertion of over-the-counter products among women in Los Angeles. International Microbicides Conference, Sydney, 2012. Veja aqui o programa.

Stahlman S et al. Rectal douching and lubricant use among global web-survey respondents. International Microbicides Conference, Sydney, 2012. Veja aqui o programa.