As consequências do tabagismo: estudos investigam a cessação do tabagismo, as recaídas e a doença pulmonar

Gus Cairns
Published: 26 November 2010

Duas apresentações na Conferência de Glasgow sobre SIDA analisaram o tabagismo nas pessoas com VIH e as suas consequências mais comuns: não o enfarte do miocárdio ou o cancro do pulmão, mas a doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC), um espectro de perturbações respiratórias que podem iniciar com uma “tosse de fumador” persistente e progredir para enfisema, uma degeneração letal frequente dos tecidos pulmonares.

Investigadores da Coorte suíça de VIH, que recolheram dados de doentes de sete serviços suíços do VIH, estudaram as taxas de tabagismo entre 2000 e 2009 em 10 511 doentes com VIH e compararam-nas com as taxas na população suíça em geral. Investigaram também as taxas de cessação do tabagismo e as recaídas.

Constataram que o hábito tabágico era pelo menos 50% mais comum nas pessoas com VIH do que na população em geral. No ano 2000, na Suíça, cerca de 60% dos doentes seropositivos fumava, em comparação com cerca de 38% dos homens na população em geral e 27% das mulheres.

A prevalência do tabagismo diminuiu na década seguinte tanto na população em geral como nos doentes do estudo e, entre os doentes da Coorte de VIH, diminuiu um pouco mais rapidamente do que na população em geral.

Na população em geral, entre 2000 e 2009, o tabagismo diminuiu cerca de 5% quer nos homens quer nas mulheres. Nos doentes seropositivos desceu, até 2009, entre 16% até 43,5%. Foram mais as mulheres que deixaram o hábito tabágico em comparação com os homens, com cerca de três mulheres seropositivas a parar durante aquele período de tempo e apenas um em seis homens: o tabagismo diminuiu nos homens à mesma velocidade do que nas mulheres até 2005, mas depois aproximou-se das taxas da população em geral.

A diminuição na prevalência do tabagismo observada é, em termos individuais, a soma total das pessoas que conseguiram deixar de fumar menos o total que reiniciou. A definição de cessação e de recaída que os investigadores usaram era a mesma: a taxa de cessação era definida como o número médio das pessoas que deixaram o hábito tabágico durante duas consultas médicas consecutivas após terem sido fumadores durante duas consultas consecutivas. A recaída era definida como o oposto disto: duas consultais como fumadores após não terem fumado durante pelo menos duas consultas.

A taxa de cessação na Coorte de VIH foi de 4,4% por ano e entre 2000 e 2009 31% dos doentes deixou o hábito tabágico pelo menos uma vez. Esta taxa mantém-se durante a década. No entanto, quase metade (44%) destas pessoas voltou a fumar pelo menos uma vez.

Nos utilizadores de drogas injectáveis (UDIs), que continuam a ser uma parte significativa da população seropositiva suíça, as taxas do tabagismo eram de longe superiores às dos outros grupos: 90% dos UDIs fumava em 2000, descendo ligeiramente para pouco mais de 80% em 2009.

Os IDUs também deixaram mais raramente o hábito tabágico (um em cada dez cessou durante a década, em comparação com um terço dos heterossexuais e 40% dos homens gays) e tinham mais recaídas (55% versus 44%).

Numa análise multivariada controlada para a idade e o sexo, os IDUs tinham menos 50% de probabilidade de deixar o hábito tabágico do que os heterossexuais, e os homens gay tinham 23% mais de probabilidade: pelo contrário, tinham 41% mais de probabilidade de recaída do que os heterossexuais e os homens gays.

Sintomas respiratórios e DPOC

Num segundo estudo oriundo de Itália, os investigadores constataram que os doentes com VIH tinham muita mais probabilidade de reportar tosse, falta de ar  e sintomas respiratórios em geral do que o grupo de controlo seronegativo da mesma idade. Tinham também uma taxa de DPOC quase triplicada.

É importante notar que o grupo seronegativo de controlo tinha a mesma proporção de pessoas com hábito tabágico (57%) que o grupo seropositivo, portanto estes aumentos não se devem ao facto de as pessoas com VIH terem mais hábitos tabágicos.

No entanto, as pessoas com hábitos tabágicos tinham muita mais probabilidade de reportar sintomas do que os não fumadores.

Os investigadores da Universidade de Sassari investigaram a função pulmonar e os sintomas respiratórios em 11 doentes com VIH e 65 pessoas seronegativas de controlo. A idade média dos dois grupos era 42 anos. Setenta por cento do grupo seropositivo era constituído por homens em comparação com 60% do grupo de controlo.

O grupo seropositivo era estável do ponto de vista médico com uma contagem média de células CD4 de 541/mm3 e 71% tinha uma carga viral indetectável, embora 35% tivessem diagnóstico de SIDA no passado. Setenta e oito por cento estavam sob terapêutica anti-retroviral e apenas 10% nunca fez terapêutica anti-retroviral. Trinta e sete por cento das pessoas do grupo seropositivo eram ou foram utilizadores de drogas injectáveis e a mesma proporção tinha hepatite C.

Estes tinham taxas muito mais elevadas de sintomas respiratórios de qualquer tipo do que o grupo de controlo (47% versus 15%), tosse (35% versus 14%), e dificuldade de respirar facilmente (30% versus 15%) e de diagnóstico de DPOC (23.5% versus 7.5%). Todas estas diferenças eram significativas estatisticamente.

Numa análise multivariada, as pessoas que tinham tido no passado pneumonia bacteriana tinham quatro vezes mais probabilidade de ter sintomas respiratórios do que as pessoas que não a tinham tido (as pessoas que tinham tido PPC ou outra doença respiratória relacionada com SIDA foram excluídas do estudo, assim como as pessoas que tinham asma).

Para além destes, o único factor associado significativamente, e de modo esmagador, com sintomas respiratórios foi o tabagismo: as pessoas com hábitos tabágicos tinham onze vezes mais probabilidade de ter sintomas respiratórios e seis vezes mais de ter DPOC do que as pessoas não fumadoras.

Os investigadores concluem, que “Os doentes com VIH, sobretudo as pessoas com hábitos tabágicos, deveriam ser rastreadas regularmente para a doença respiratória”.

Referências

Huber M et al. Smoking: prevalence, cessation rates and relapse rates in the Swiss HIV Cohort study. Tenth International Congress on Drug Therapy in HIV Infection, Glasgow. Abstract P231. 2010.

Madeddu G et al. Prevalence and risk factors for chronic obstructive lung disease in HIV-infected patients in the HAART era. Tenth International Congress on Drug Therapy in HIV Infection, Glasgow. Abstract P232. 2010.