A redução de dose do efavirenze é segura e eficaz nos doentes com níveis plasmáticos elevados do medicamento

Michael Carter
Published: 07 October 2009

Investigadores holandeses reportam, na 1a edição online do Journal of Acquired Immune Deficiency Syndromes, que se pode reduzir, com segurança, as doses de efavirenze nos doentes que apresentam elevados níveis de concentração plasmática do medicamento. A redução da dose do medicamento teve como consequência uma menor probabilidade de os doentes interromperem o tratamento com efavirenze devido a efeitos secundários e, também, não aumentou o risco de a carga viral voltar a ser detectável.

O efavirenze (Stocrin®), presente também no comprimido de combinação Atripla®) é um dos medicamentos recomendados para o tratamento anti-retroviral de primeira linha. O medicamento tem um efeito potente contra o VIH, é fácil de tomar e tem um perfil “ligeiro” quanto aos efeitos secundários.

No entanto, uma proporção das pessoas que iniciam o tratamento com efavirenze reporta efeitos secundários relacionados com o sistema nervoso central. Estes podem incluir dificuldade em dormir, sonhos vívidos e depressão. Embora tais efeitos secundários sejam muitas vezes ligeiros e passageiros, um número reduzido de pessoas interrompe, por isso, o tratamento.

Existe alguma evidência de que tais efeitos secundários ocorrem com maior probabilidade quando um doente tem concentrações plasmáticas elevadas de efavirenze.

Os investigadores conceberam um estudo de 48 semanas para verificar se doentes com elevadas concentrações de efavirenze no sangue podiam diminuir, com segurança, a dose diária do medicamento e se tal redução de dose implicava que o doente tinha menos probabilidades de interromper o tratamento.

O estudo incluiu doentes que iniciaram o tratamento com efavirenze entre 1998 e 2007. Os níveis plasmáticos do medicamento dos participantes eram verificados usando o teste da monitorização terapêutica de fármacos (TDM).

Um total de 180 doentes com concentrações plasmáticas elevadas de efavirenze (superior a 4mg/l) ou reduziram a dose do medicamento ou continuaram a tomar a dose diária padrão de 600 mg.

A dose do efavirenze foi reduzida para 400 mg em 47 doentes. Isto resultou numa redução nas concentrações plasmáticas médias do medicamento de 6,8 mg/l para 4 mg/l, o que foi estatisticamente significativo (p <0,001).

Em dois doentes reduziu-se a dose de 600 mg para 200 mg. Num dos doentes, isto resultou numa redução dos níveis do medicamento de 6,4 mg/l para 2,78 mg/l. Noutros doentes, os níveis de efavirenze desceram de 27,7 mg/l para 11 mg/l. Por isso, a dose do efavirenze foi ulteriormente reduzida para 100 mg, resultando numa descida das concentrações do medicamento para 2,7 mg/l.

Os níveis do efavirenze mantiveram-se acima do limiar da eficácia (1mg/l) em todos os 42 doentes a quem foi feita uma segunda medição após a redução. No entanto, os investigadores notaram que 22 doentes tinham ainda uma concentração plasmática do medicamento de 4 mg/l ou acima, apesar de uma redução da dose para 400 mg, e muitos destes doentes continuaram com concentrações elevadas do medicamento não obstante ulteriores reduções da dose.

Após um ano de seguimento, 14 doentes que continuaram a tomar a dose padrão de efavirenze interromperam o tratamento com o medicamento em comparação com um único doente pertencente ao grupo que reduziu a dose. Com base nos resultados, estimou-se uma probabilidade de incidência de 12 vs 2%, uma diferença de significado borderline (p = 0.066).

A carga viral manteve-se abaixo das 50 cópias/ml em 95% dos doentes que reduziram a dose do efavirenze em comparação com 86% dos que continuaram a tomar a dose de 600 mg. A história prévia de tratamento e a carga viral no início do estudo foram os factores mais associados com os resultados virológicos.

“Este estudo demonstrou", segundo os investigadores, “que a redução da dose do efavirenze, controlada pela monitorização terapêutica, pode prevenir a interrupção de tratamento, induzida pela toxicidade, em doentes com elevadas concentrações plasmáticas”.

Acrescentam que “não observaram qualquer efeito prejudicial da redução da dose na resposta virológica.”

Por último, concluem que "o nosso estudo demonstra que a redução da dose, controlada pela monitorização terapêutica, pode ser uma opção em doentes que têm elevadas concentrações plasmáticas de efavirenze. A redução da dose não afecta negativamente a eficácia virológica e pode prevenir a interrupção do tratamento induzida pela toxicidade.”

Referência

Van Luin M et al. Efavirenz dose reduction is safe in patients with high plasma concentrations and may prevent efavirenz discontinuations. J Acquire Immune Defic Syndr 52: 240-45, 2009.