A infecção pelo VIH ainda retira 13 anos à esperança média de vida – motivo principal: realização tardia do teste

Gus Cairns
Published: 13 December 2010

De acordo com um estudo apresentado no 10º Congresso sobre terapêutica da infecção VIH (Tenth Congress of Drug Therapy in HIV Infection), realizado em Glasgow, no início de Novembro, a infecção VIH ainda prejudica de forma significativa a esperança média de vida das pessoas com VIH que vivem no Reino Unido.

De facto, o VIH ainda retira, actualmente, cerca de 13 anos à esperança média de vida, embora 10 desses anos se devam ao facto de as pessoas realizarem tardiamente o teste, quando os CD4s estão já abaixo das 200 células/mm3. Além disso, refira-se que o impacto do vírus é sentido de forma desproporcionada nos homens, cuja perda de esperança de vida devida ao VIH é cerca do dobro da das mulheres.

Tal como foi já dito, a parte mais significativa desta perda é devida ao diagnóstico tardio: trata-se de pessoas que na altura do diagnóstico apresentavam uma contagem baixa de células CD4 e que morreram no primeiro ano após o teste. Já no caso das pessoas com uma contagem de superior a 200 células, o défice da esperança média de vida foi de 6.5 anos após o ano 2000, tendo-se tornado praticamente normal nos últimos dois anos, de acordo com Margaret May, que apresentou os resultados da investigação.

Esta investigação, de nome UK CHIC, juntou dados e observações de 30 diferentes consultas e centros clínicos do Reino Unido, examinando perto de 18 000 doentes que iniciaram tratamento anti-retroviral (TARV) entre 1996 e 2008. E excluiu pessoas que começaram o TARV com uma contagem de CD4s superior a 350 células, bem como os utilizadores de drogas injectáveis, ou seja, os grupos que com maior probabilidade apresentariam respectivamente a mais elevada e a mais reduzida esperança média de vida.

Três quartos das pessoas do grupo estudado eram do sexo masculino, 58% homossexuais masculinos e 60% brancos. A idade média do início do tratamento ARV foi 37 anos e a contagem média de células CD4 nessa ocasião 166.

Sete por cento das pessoas (1 248 pessoas) morreram, tendo sido calculada a taxa de mortalidade para as pessoas diagnosticadas em quatro diferentes períodos de três anos cada (1996-99, 2000-02, 2003-05 e 2006-08). Estes dados foram posteriormente utilizados para calcular uma mortalidade padronizada, na forma de esperança média de vida aos 20 anos de idade, ou seja, os anos que uma pessoa pode esperar viver, depois de atingir os 20 anos de vida. (Isto não significa esperança média de vida se todos fossem diagnosticados aos 20 anos. Significa, isso sim, esperança de vida aos 20 anos de idade de alguém que ou era ou subsequentemente se tornou seropositivo para o VIH; por outras palavras, esta medida demonstra o impacto da infecção VIH na vida individual de cada um, independentemente da idade na altura do diagnóstico).

Para as pessoas diagnosticadas durante o primeiro período (1996-99), a esperança de vida foi de 30 anos; por outras palavras, uma pessoa cujo diagnóstico de VIH tenha sido feito neste período poderia esperar, com 20 anos de idade, viver até chegar aos 50 anos. (Note-se que se você foi diagnosticado neste período – 1996-99 – e está agora nos quarenta e muitos, isso não significa que tenha apenas uns quantos, poucos, anos de vida: a esperança de vida aumenta à medida que as pessoas envelhecem, uma vez que o facto em si mesmo de ter sobrevivido, torna mais provável o facto de que vai continuar a viver).

No que se refere ao período 2006-2008, o valor da esperança de vida tinha melhorado em um terço, para 46 anos; por outras palavras, estas pessoas poderiam esperar viver até chegarem aos 66 anos.

Contudo, este valor é ainda inferior em 13 anos ao da esperança de vida aos 20 anos para a população em geral do Reino Unido. Além disso, verificou-se uma disparidade considerável entre homens e mulheres. Na população em geral, a diferença na esperança de vida entre homens e mulheres tem vindo a diminuir, situando-se agora em apenas dois anos, devido sobretudo às conquistas feitas com as doenças cardíacas nos homens; assim, um homem de 20 anos pode esperar viver até aos 80 anos e uma mulher até aos 82.

No que se refere à população das pessoas seropositivas para o VIH em geral, os homens apresentam uma esperança de vida aos 20 anos, de 40 anos (o que significa que um homem com o diagnóstico de VIH pode esperar viver até aos 60 anos), e as mulheres, de 50 anos. As razões por trás desta diferença não são ainda exactamente conhecidas, sendo necessária mais investigação para se perceberem as razões.

Os valores da esperança de vida continuam, porém, a melhorar. Para as pessoas diagnosticadas em 2006-08 que têm mantido uma contagem de CD4s superior a 200 células, a esperança de vida aos 20 anos é agora igual à da população em geral.

Margaret May referiu que se todas as pessoas fossem diagnosticadas com um valor de CD4s superior a 200, este facto melhoraria a esperança de vida em 10 anos. “Em conclusão”, referiu, “somos partidários da posição daqueles que defendem um diagnóstico e tratamento atempados, factores que poderão melhorar a esperança de vida das pessoas com VIH no Reino Unido”.

Referência

May M et al. Impact on life expectancy of late diagnosis and treatment of HIV-1 infected individuals: UK CHIC. Tenth International Congress on Drug Therapy in HIV Infection, Glasgow. Abstract O233. 2010.