De acordo com um grupo de investigadores norte-americanos, cujo estudo acaba de ser publicado na edição online do Journal of Acquired Immune Deficiency Syndromes, os níveis de adesão ao tratamento anti-retroviral (ARV) diferem substancialmente entre os vários grupos étnicos.
“A adesão é multifactorial e varia significativamente consoante a raça e etnia”, referem os investigadores.
São vários os factores com impacto sobre a adesão ao tratamento ARV, como o estado geral de saúde, os efeitos secundários dos medicamentos, as circunstâncias sócio-económicas ou o uso de álcool ou drogas.
Embora alguma investigação tenha sugerido que as minorias raciais apresentam níveis menores de adesão, existe pouca informação sobre as causas que podem estar na origem deste facto.
Além disso, tanto os hispânicos como os negros são frequentemente considerados como grupos populacionais estanques e uniformes, sem se levar em conta as importantes diferenças étnicas que podem existir no seio destes grupos.
Dado que tanto os negros como os hispânicos norte-americanos são muito mais afectados pela epidemia de VIH do que os restantes grupos étnicos, um grupo de investigadores do Multicenter AIDS Cohort Study procurou investigar de que forma a adesão difere de acordo com a raça e etnia.
O estudo envolveu 1 102 homens homossexuais, todos seropositivos para o VIH e a tomar medicação ARV. Pediu-se a esses homens para definirem a sua raça (branca, negra, hispânica ou outra) e para escolherem de entre 19 categorias aquela que melhor definisse a proveniência nacional e étnica da sua família.
Além disso, pediu-se-lhes que fornecessem informação detalhada sobre a adesão à terapêutica.
Para determinar que factores influenciavam a adesão, foi recolhida, assim, informação sobre as circunstâncias sócio-económicas, o uso de drogas, a carga viral, a contagem de células CD4s e a sintomatologia.
No total, verificou-se que a maioria dos homens eram brancos (58%), sendo 26% negros e 14% hispânicos.
Quanto às circunstâncias económicas, registaram-se diferenças marcadas entre os grupos: por exemplo, 48% dos negros referiram ter um rendimento anual de valor igual ou inferior a 10 000 dólares, por comparação com 31% dos hispânicos e 10% dos brancos.
O padrão de uso de drogas também variava: o uso de crack/cocaína era mais elevado entre os negros (22%) do que entre os brancos (8%) ou hispânicos (4%). Contudo, os brancos referiram mais consumo de poppers (34%) do que os hispânicos (19%) ou os negros (13%).
No que respeita a uma adesão completa ao tratamento ARV, ela foi referida por 44% dos homens brancos, 32% dos hispânicos e 28% dos negros.
Depois de ter sido feito o controlo para os factores sócio-económicos e o uso de drogas, os brancos eram o grupo com menor probabilidade de referir não-adesão. Em comparação com os brancos, os hispânicos eram 2.16 vezes mais não-aderentes e os negros 1.37 vezes mais.
Os factores associados com não-adesão diferiam entre os grupos raciais.
No caso dos homens brancos, as idades mais jovens, as dores articulares e a carga viral todas estavam significativamente associados com não-adesão. Para os homens hispânicos, os factores incluíam, da mesma forma, os grupos etários mais jovens e a carga viral. Entre os negros, a situação era mais complexa: nem as idades jovens, nem a carga viral demonstraram ser factores com significado. Já as dificuldades financeiras, a duplicação do custo das receitas médicas, um rash cutâneo novo e o uso de crack demonstraram sê-lo.
Por fim, os investigadores foram estudar a adesão de acordo com a identidade nacional e étnica referida pelos homens hispânicos e negros.
Entre os hispânicos, a adesão era maior (44%) entre os que se descreviam como de descendência europeia, do que entre os que referiam origens familiares na América Central ou do Sul (28%) ou nas Caraíbas (22%).
De forma semelhante, a adesão foi mais elevada entre os negros que referiam origem europeia (38%), do que entre os de origem africana (28%) ou nas Caraíbas (13%).
“Descobrimos que os negros e hispânicos têm maior probabilidade de ser não-aderentes e que os indivíduos cujas famílias são originárias da América Central e do Sul ou das Caraíbas apresentam um risco particular de não-adesão”, escrevem os autores. Que concluem: “a investigação e as intervenções futuras na área da adesão devem focar-se não apenas nos grupos raciais mas também nas diferenças étnicas no seio desses grupos”.