De acordo com estudo Sul-Africano de grandes dimensões, é tão provável detectar um recrudescimento viral no decorrer do tratamento através de uma baixa adesão (traduzida numa interrupção das idas à farmácia hospitalar para levantar os medicamentos), como através da detecção de um declínio do número de células CD4.
Os resultados deste estudo, publicados na revista PLoS Medicine, vêm assim contribuir para o debate sobre os métodos mais adequados para detectar uma falência do tratamento, na ausência dos testes de carga viral.
A utilização regular dos testes de carga viral consegue detectar um recrudescimento da replicação do vírus. Se os níveis do vírus subirem acima dos limites de detecção do teste, o tratamento pode ser alterado, de modo a evitar o aparecimento de resistências; os doentes podem também receber aconselhamento intensivo sobre adesão, se tiverem referido problemas recentes com a toma dos seus medicamentos.
Uma melhoria na adesão pode ser o bastante para voltar a obter uma supressão da carga viral para valores inferiores a 50 cópias/ml, sem chegar a haver necessidade de mudar para um regime terapêutico de segunda linha, habitualmente mais dispendioso.
Nos locais onde os testes de carga viral não estão disponíveis, a OMS recomenda actualmente a utilização de uma redução do número de células CD4 como sinal para a mudança de tratamento.
Mas o número de células CD4 pode demorar muito tempo até baixar para um valor significativo, período durante o qual a replicação viral continuará sem obstáculos, o que acarretará o desenvolvimento de níveis elevados de resistências aos fármacos entretanto administrados.
Esta resistência pode reduzir a eficácia do tratamento de segunda-linha, em especial nos locais onde as opções terapêuticas estão restringidas devido a limitações orçamentais.
Tendo por base estes pressupostos, um grupo de investigadores da University of Pennsylvania School of Medicine, da Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health e da Aid for AIDS – um programa de controlo da doença na África do Sul -, propôs-se determinar se a monitorização dos níveis de adesão podia constituir um alerta preciso e atempado de uma falência do tratamento devida a uma subida do vírus.
Uma vez que o recrudescimento da carga viral – ou falência da supressão da carga viral sob tratamento – é geralmente devido a uma baixa adesão, a equipa de investigação colocou a hipótese de que uma observação atenta da adesão do doente podia fornecer aos clínicos - na ausência de monitorização laboratorial - informação suficiente de modo a saber-se quando intervir.
O estudo utilizou a mais grosseira medida de adesão disponível – a interrupção das deslocações mensais à farmácia hospitalar para levantar a medicação – e integrou os dados, fornecidos pelo sistema informático, relativos a 1982 doentes a fazer tratamento ARV baseado em ITRNNs para os quais se dispunha dos valores relativos à contagem de CD4s e à carga viral no início do tratamento, aos 6 e aos 12 meses.
O estudo procurou avaliar duas formas de falência do tratamento:
**Ausência de resposta virológica aos 6 ou aos 12 meses (carga viral acima das 1000 cópias/ml).
**Recrudescimento viral para valores superiores a 1000 cópias/ml, depois de uma carga viral (CV) prévia inferior a 400 cópias/ml.
A adesão, calculada a partir do número de solicitações de mais medicação junto da farmácia, foi expressa como uma percentagem do número total de meses desde o início do tratamento em que os medicamentos eram recolhidos.
Foi detectada uma falência da resposta virológica (ou seja, uma ausência da diminuição da carga viral) em 25% dos doentes com valores de carga viral (CV) disponíveis aos 6 meses, e em 26% dos doentes com valores de CV disponíveis aos 12 meses.
Após um seguimento de, em média, 1.75 anos, detectou-se um recrudescimento viral em 14% dos doentes que tinham inicialmente atingido uma CV indetectável (n=1101).
Os níveis de adesão foram capazes de prever a falência virológica aos 6 e 12 meses de forma mais precisa do que as contagens de células CD4, tendo-se mantido esta relação mesmo quando o limiar para falência virológica foi aumentado para 10 000 cópias/ml.
Não se registou uma diferença significativa entre a adesão ao tratamento e os níveis de CD4 na sua capacidade de predizer com exactidão a descida do vírus.
Quando diferentes níveis de adesão ou descidas na contagem de CD4 foram avaliados com o objectivo de se comparar as respectivas sensibilidade (ou seja, a percentagem de falências virológicas que cada método não detectou) e especificidade (ou seja, em termos práticos, a percentagem dos que mudaram de esquema terapêutico apesar duma situação de supressão viral), uma adesão superior a 90% revelou-se substancialmente mais sensível do que qualquer contagem de CD4s.
Contudo, uma decisão de mudar de esquema terapêutico com base numa descida dos CD4s teria resultado em muito menos mudanças desnecessárias para esquemas de segunda-linha.